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EDISON BELL GEM
Publicado em 12 de junho de 2026

Para quem não está muito familiarizado com a história da fonografia talvez passe despercebido que o nome da empresa britânica Edison Bell faz referência a dois grupos que foram concorrentes nos primórdios da indústria fonográfica.

 

De um lado temos Thomas Edison, que é amplamente reconhecido como o inventor do fonógrafo. Do outro, Alexander Graham Bell, bastante lembrado quando o assunto é o  telefone, mas menos relacionado ao desenvolvimento da fonografia. 

 

Bell fundou o Laboratório Volta juntamente com seu primo Chichester Bell e Charles Tainter e, dentre as pesquisas realizadas, o grupo se dedicou ao aperfeiçoamento do fonógrafo de Edison.

Em 1886, lançaram o graphophone, um fonógrafo que utilizava cilindros recobertos com cera que podiam ser facilmente removidos da máquina. A inovação representou um passo importante para viabilizar o uso comercial do fonógrafo.

Com a patente em mãos tentaram fazer um acordo com Edison, que não aceitou e retomou o trabalho com o fonógrafo para lançar sua própria versão aperfeiçoada. Daí em diante uma longa história se desenrola, mas é dessas sementes que brotam as duas empresas estadunidenses que foram as pioneiras na venda de fonógrafos e cilindros: a National Phonograph Company e a Columbia Phonograph Company.

Em 1892, a Edison Bell Corporation foi fundada em Londres. A empresa adquiriu o direito de explorar na Inglaterra as patentes de Edison e Bell-Tainter, por um período de dez anos. Em 1898, após uma fusão com a Edisonia, mudou o nome para Edison Bell Consolidated Phonograph Co Ltd. Com o fim do direito de uso das patentes estadunidenses, a Edison Bell começou a fabricar seus próprios fonógrafos. A empresa lançou modelos com fortes inspirações nas máquinas Edison e o pequeno GEM ganhou a sua versão britânica. (CLPGS)

Apesar de ser um fonógrafo simples e de baixo custo na época, hoje em dia o Edison Bell GEM é difícil de ser encontrado, principalmente aqui no Brasil. Esse veio da Inglaterra em um estado de conservação razoável. O acabamento estava relativamente preservado, porém o fundo do gabinete apresentava uma parte descolada. Ao desmontar a máquina foi possível notar que o dano havia sido causado pela própria corda do motor, que quebrou e passou a forçar o fundo do gabinete até uma parte se descolar e empenar com o tempo.

Motor Edison Bell Gem
Motor Edison Bell Gem
Motor Edison Bell Gem
Motor Edison Bell Gem

Com a máquina desmontada também foi possível notar que faltava o eixo/pinhão responsável por tracionar a corda quando a manivela é acionada. Inclusive, a manivela não veio com o fonógrafo. Assim, o primeiro passo da restauração foi procurar pelas peças que faltavam. 

 

Como a versão estadunidense do GEM não é exatamente igual, o caminho foi procurar por fornecedores e colecionadores na Europa. Esse processo levou algum tempo até dar resultado, então o projeto foi ficando na fila de espera por alguns anos.

A procura chegou ao fim no ano passado, quando localizei partes de um Edison Bell GEM à venda na Inglaterra. Contando com a ajuda e generosidade do Paul Morris, um grande especialista em máquinas falantes, foi possível importar as peças e finalmente iniciar a restauração do fonógrafo.

A máquina parcial também veio com a corda quebrada e não foi possível aproveitá-la. Mas a outra corda estava quebrada bem próxima do encaixe, então minha aposta era que ainda seria possível utilizá-la. Para fazer um novo encaixe, primeiro aqueci a ponta quebrada para destemperar o metal. Com isso foi possível cortar, furar e entortar a ponta da corda com facilidade. Originalmente o encaixe é preso com um rebite, mas acabei usando um parafuso com porca no lugar.

O motor foi completamente desmontado para a limpeza das peças e remoção da graxa antiga. Com tudo limpo, o motor foi montado novamente e uma nova lubrificação aplicada. O mecanismo superior também passou por uma limpeza geral e felizmente todas as peças estavam em boas condições. Com tudo montado, era hora de testar o funcionamento do fonógrafo. Depois de alguns ajustes, a máquina funcionou perfeitamente e, para minha sorte, a corda deu conta de tocar um cilindro inteiro.

Então o trabalho avançou para a restauração do gabinete. Incialmente, minha intenção era fazer um processo mais conservador, aproveitando ao máximo o acabamento original. Porém, durante a desmontagem e reparo do fundo fui percebendo que o gabinete tinha pontos de fragilidade e imperfeições. Além disso, desempenar o fundo sem deixar marcas não estava sendo uma tarefa fácil e os retoques acabariam aparecendo.

Por outro lado, o gabinete que veio com a máquina parcial estava bastante sólido, sem nenhum dano significativo na madeira. Mas o ponto fraco era o acabamento e o decalque que estavam deteriorados. Então, para usar esse gabinete seria preciso refazer completamente o acabamento.

Como fiquei anos esperando para restaurar o fonógrafo, minha expectativa é que o resultado fosse perfeito. Então, optei por utilizar o gabinete que estava com a melhor estrutura e, consequente, refazer todo o acabamento.

Diante disso pude colar novamente todos os encaixes da tampa sem nenhuma preocupação em deixar marcas, já que depois todas as partes seriam completamente lixadas.  Também adaptei pequenos pedaços de madeira na parte interna do gabinete para fixar os parafusos que predem a base do mecanismo.

No acabamento eu segui o processo de sempre, que já detalhei em relatos anteriores, como na restauração desse Edison Standard. Basicamente sigo as seguintes etapas: Lixamento > Tingimento > Selagem com goma laca > Preenchedor de grão na cor preta > Acabamento final com goma laca. Depois de aplicar o decalque ainda cubro com algumas camadas de goma laca para protegê-lo. A finalização é feita com lixa fina (600/800) e aplicação de cera para deixar a superfície com brilho acetinado.

Para acompanhar o novo acabamento do gabinete, também refiz a pintura de todas as peças pretas: base do mecanismo, braço do reprodutor, portinha que trava o mandril e a manivela. Faço a remoção total da tinta antiga, aplico duas demãos de primer, tinta preta e finalizo com a goma laca. A pintura das linhas douradas é realizada manualmente antes da finalização com a goma laca. Costumo usar uma caneta permanente com tinta a base de esmalte sintético com espessura de 0.8mm. Para dar o toque final, as peças metálicas receberam um novo banho de níquel.

 

Por fim, faltava restaurar o reprodutor, que é basicamente uma cópia do Edison Model C com a escrita New Model estampada no corpo. O reprodutor não estava em boas condições, foi necessário instalar uma nova agulha de safira, trocar a dobradiça que prende o peso no corpo, substituir o diafragma de mica e trocar as juntas. O que ajudou nesse processo foi a possibilidade de utilizar as peças do Model C, que são mais fáceis de serem encontradas.

Depois de um longo tempo de espera e muito trabalho, o pequeno Edison Bell GEM ficou pronto. O resultado foi muito satisfatório! Para registrar o fonógrafo em funcionamento selecionei um cilindro Edison Bell com a música Haiwatha, interpretada pela Banda Regimental de Londres. Encontrei um registro da música no Internet Archive, que parece ser a mesma versão digitalizada a partir do cilindro. Nas informações consta que o ano de lançamento foi 1903, o que acredito ser uma boa estimativa.

Edison Bell GEM restoration restauração
Edison Bem GEM decal Gregory Cline
Edison Bell GEM parts

© 2026, Marcelo Sgrilli.

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