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EDISON RED GEM MODEL E
Publicado em 16 de maio de 2026

O GEM é o menor fonógrafo de Edison, desenvolvido com o intuito de oferecer ao público uma máquina de baixo custo.

A primeira versão foi lançada ainda em 1899 e custava $ 7,50 dólares. Concorria diretamente com os modelos de entrada das outras marcas, principalmente com o Modelo Q da Columbia, que custava $ 5,00 dólares no mercado estadunidense.

 

A Canadian Antique Phonograph Society publicou um artigo escrito por Domenic DiBernardo que conta em detalhes a história e a evolução do Edison GEM. 

Ao longo dos anos o GEM foi sendo aperfeiçoado e o Modelo E foi a última versão lançada em 1912. Nesse modelo a base de ferro fundido é apresentada na cor vermelha, por isso esse fonógrafo ficou conhecido como Red GEM, ou Maroon GEM.

A versão anterior, o Modelo D, já contava com esse acabamento vermelho e também é chamada pelo mesmo nome. Na verdade, o Modelo D e E são muito semelhantes. A diferença é basicamente que o Modelo E não possuí o sistema de troca de velocidade e reproduz somente cilindros de 4 minutos. Além disso, possuí um braço diferente, com um orifício maior para encaixar o reprodutor Model N. 

Atualmente, o Modelo E é bem mais dificil de ser encontrado, sendo considerado um fonógrafo raro pelos colecionadores mundo a fora. Apesar disso, esse apareceu à venda aqui no Brasil. Aparentava estar em bom estado, mas com algumas modificações visíveis. Por exemplo, o gabinete já havia sido restaurado e apresentava uma coloração mais clara com uma réplica de decalque não muito acurada. No braço havia um reprodutor Model H com defeito, instalado com o auxílio de um anel adaptador. Acompanhava uma corneta vermelha que imitava o formato da original, mas não era uma réplica perfeita.

 

Dessa forma, o caminho foi preservar a originalidade da base vermelha de ferro fundido e restaurar o restante. Costumo começar esse tipo de trabalho revisando o mecanismo primeiro, para colocar a máquina em funcionamento antes de restaurar o acabamento. Isso evita danificar o novo acabamento durante todo o processo de testes e ajustes. 

 

Desmontando o fonógrafo já foi possível notar que a corda continha uma adaptação, provavelmente devido a uma quebra anterior. Diferente dos outros modelos, no GEM a corda fica exposta no motor. Por ser uma corda pequena, fiquei em dúvida se com essa adaptação ela ainda teria força suficiente para tocar um cilindro de 4 minutos inteiro. Algo a ser testado após a revisão de todo o mecanismo.

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Novos problemas surgiram durante a desmontagem do motor. O pinhão que traciona o eixo da polia apresentava bastante desgaste. Assim como os dentes na ponta do eixo do controlador de velocidade (governor). Como em ambos os casos os desgastes eram significativos, o caminho foi substituir as peças.

Com as peças “novas” em mãos, fiz a montagem do motor e iniciei os testes preliminares. O fonógrafo rodou bem, mas conforme havia suspeitado, a corda não tinha força suficiente para reproduzir um cilindro inteiro. Então foi necessário garimpar uma corda nova para o pequeno GEM.

Encontrei à venda no Ebay uma corda nova de estoque antigo da marca Valley Force, nº 16, com as seguintes especificações: 5/8” (L) x 0.020” (E) x 11 feet (C). Um detalhe interessante é o preço de $ 1.50 marcado na embalagem original. 

 

Com a corda nova instalada, o fonógrafo funcionou perfeitamente, reproduziu um cilindro do início ao fim.

O passo seguinte foi iniciar a aplicação do novo acabamento. Ao contrário do que se imagina, a coloração de carvalho antigo nos fonógrafos Edison não é apenas resultado da ação do tempo. Na verdade, os modelos com essa cor já saíam de fábrica com um tingimento amarronzado. Então para se aproximar desse aspecto original da máquina é necessário realizar o tingimento da madeira no processo de restauração.

Existem várias formas e produtos para fazer o tingimento, costumo utilizar um tingidor base d’água na cor nogueira misturado com uma pequena quantidade de mogno. Aplico o tingidor depois do lixamento completo do gabinete, antes de iniciar as demãos de goma laca, que é o verniz originalmente utilizado nesses gabinetes.

Já descrevi esse processo de forma detalhada em relatos anteriores, mas basicamente o caminho que faço é o seguinte: Lixamento > Tingimento > Selagem com goma laca > Preenchedor de grão na cor preta > Acabamento com goma laca. Depois de aplicar o decalque ainda cubro com algumas camadas de goma laca para protegê-lo. A finalização é feita com lixa fina (600/800) e aplicação de cera para deixar a superfície com brilho acetinado.

Para acompanhar o novo acabamento do fonógrafo encontrei uma excelente réplica de uma corneta Fireside, que normalmente é a utilizada no Red GEM. Consiste em uma pequena corneta no formato de flor (Morning Glory) pintada na cor vermelha com linhas douradas. Apesar de pequena, é necessário utilizar uma haste para sustentar a corneta. 

A corneta veio sem acabamento. Dessa vez, optei por usar produtos automotivos para obter uma pintura mais resistente. Preparei a peça com um primer universal e, depois de um leve lixamento, apliquei a tinta base poliéster na cor vermelha.

As linhas douradas também foram pintadas com tinta base poliéster. Foi necessário fazer o mascaramento de toda a corneta para proteger as áreas que não iriam receber tinta. Usei fita de filetamento para evitar borrar os contornos. É um processo bem mais trabalhoso do que pintar as linhas com pincel. Mas no caso da tinta poliéster não há escolha, pois não é possível aplicá-la com pincel.

Com as linhas douradas pintadas, o próximo passo foi a aplicação do decalque e na sequência o verniz PU. A tinta poliéster é apenas uma base e não possuí resistência, então a aplicação do verniz PU é obrigatória. Inclusive, no processo automotivo é recomendável que o intervalo entre a aplicação da base poliéster e o verniz seja de poucas horas, para garantir aderência e evitar desplacamento. No caso da corneta, como a tinta vermelha havia sido aplicada no dia anterior, fiz um lixamento leve nessas partes para melhorar a aderência do verniz.

Enquanto trabalhava na restauração do fonógrafo, procurava por um reprodutor Model N para deixar a máquina completa. Encontrei um a venda por um preço aceitável, mas sem garantias de funcionamento. Acabei encarando os riscos.

Quando o reprodutor chegou, reparei que não encaixava corretamente no braço do fonógrafo. Isso acontece com frequência com reprodutores que tem o corpo produzido em metal de baixa fusão. Com o tempo esse tipo de liga metálica pode apresentar deformações. Para resolver o problema basta lixar ao redor da região do encaixe no corpo do reprodutor até chegar na medida correta. Além desse ajuste, também foi necessário trocar as juntas do diafragma para um melhor funcionamento do reprodutor.

Com tudo pronto e montado, finalmente chegou a hora de ver o pequeno GEM em ação. Selecionei para o vídeo um cilindro que considero tão especial quanto esse fonógrafo, uma gravação do maxixe Dengoso, de Ernesto NazarethA partitura de Dengoso foi publicada em 1907 pela Casa Vieira Machado e rapidamente se espalhou pelo mundo. Foi interpretada em diversas gravações e transformou em um grande sucesso da época. Em 1914, a música foi lançada em cilindro Blue Amberol com a interpretação da National Promenade Band.  Então o que vamos ouvir é um raro registro de uma composição brasileira em cilindro Edison.

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© 2026, Marcelo Sgrilli.

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